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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Abandonado


É triste mas é a verdade...
Estou só numa cidade com um milhão de pessoas...
Para perceberem a magnitude da minha solidão, reparem que até a minha sombra me abandonou...
Se na rua se cuzarem com alguém incapaz de projectar a opacidade do seu corpo quando a luz incide nele, encontraram-me.
Agora sem a minha sombra não importa se vivo na luz ou na escuridão, em ambos os ambientes serei incapaz de espelhar a minha silhueta, apenas sei que não importa onde esteja vou estar completamente despojado de uma presença que me impeça de afogar na solidão...
Para onde vou? Já sei.
Encaminho-me para um lugar onde ainda posso deixar marcas e que ao mesmo tempo me acalma o espírito. Chego à praia, coloco os pés na areia, qual carimbo numa folha de papel, lá está a minha planta do pé marcada na areia suavizada pelo vaivém das ondas do mar, continuo a caminhar pela praia, deixando o rasto da minha passagem, perseguido pela solidão.
Observo o horizonte conserva-se para mim como a fronteira da minha natureza humana, observo-o acalentando no espírito alcançá-lo, raiam na água os últimos suspros do sol moribundo, num crepúsculo que antecipa a imensa escuridão da noite.
Olho para trás, já não há rasto das minhas pegadas, absorvidas pelo mar, atravessei a praia sem conservar a assinatura da minha presença neste local, apenas aquele espaço de tempo em que as minhas pegadas foram impressas, fugaz rubrica do meu ser, espelho da forma como passo pela vida.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Paredes Vazias


E fico aqui olhando estas paredes vazias que me aprisionam o corpo, mas que ainda assim não me podem agrilhoar a mente, com a qual resisto às investidas da insanidade.
Cada dia que passa a vitória nesta luta titânica assemelha-se cada vez mais a uma quimera inconcebível, mas ainda assim recuso-me a desistir, e tento apenas libertar-me dos meus medos que me enfraquecem neste conflito visceral.
Dentro de cada um de nós jaz um guerreiro, pode apenas estar adormecido, basta não cruzarmos os braços e desistir à primeira adversidade que ele despertará.
Continuo a contemplar estas paredes vazias, despidas de qualquer conteúdo, observo neste momento a projecção da minha sombra sobre as mesmas, chego a receá-la às vezes de embrenhado na solidão que estou, a sua presença aqui desperta o meu lado obscuro e por momentos cesso a luta que travo, as trevas apoderam-se da minha mente e sinto as forças esvaírem-se, num último rasgo de consciência percorro mentalmente todo o caminho que me trouxe a este beco sem saída e qual fénix renascida, concentro novamente as minhas forças para pelo menos prolongar a minha existência.
Durante esta batalha interior sinto-me reanimado e neste momento já nada me faz temer, independentemente do desfecho sei que fui aos meus limites, sei que dei tudo e enquanto me aguentar de pé, enquanto não cair de joelhos vou respeitar a velha máxima "mais vale quebrar que torcer".
Silêncio...Tudo repousa agora. Calmamente, limpo as marcas da batalha travada, tenho cicatrizes mentais, provavelmente nunca mais as vou curar, e afligem-me bem mais que as cicatrizes que me sulcam a pele...
Ainda assim valeu a pena todo esforço e consigo neste momento atravessar as paredes vazias que me sitiavam, sigo descobrindo o Mundo que me fora vedado.
E tenho agora por companheira a sombra que quase me fez renunciar à luta, mas que agora segue a meu lado e me lembra pura e simplesmente que o sol ilumina o meu caminho.